domingo, 11 de março de 2012

Crítica Teatral - São Paulo Surrealista

Está em cartaz no Madame, no bairro do Bela Vista, centrão de São Paulo (antigo Madame Satã) o espetáculo da Companhia Teatro do Incêndio, dirigido por Marcelo Marcus Fonseca São Paulo Surrealista. Marcando não só a história da cidade, mas sua relação com os diversos artistas, poetas que aqui viveram e retrataram a cidade nessa visão Surreal, que cada vez mais parece com a realidade em si.
O espetáculo, com duração de 60 minutos é não só uma homenagem à artistas como André Breton (Marcelo) , autor do Primeiro Manifesto Surrealista, que marca o estilo e a linguagem da peça e sua relação com Antonin Artaud (Liz Reis), autor de O Teatro e Seu Duplo, famoso por tentar provar por cartas sua lucidez e forte nome Surrealista, Mário de Andrade (João Sant'Ana) poeta paulistano do movimento modernista e a brasileira Patrícia Pagu (Isabella Dragão), jornalista famosa pelo movimento Modernista e forte nome no meio artístico Paulistano da década de 40. Usando desta linguagem que necessita mais de imagens e sensações que textos, a peça faz sua crítica a esta cidade fomentada em uma diversidade de culturas, costumes, gente, estilos e que ao mesmo tempo, tal qual a maioria de seus poetas e artistas, se destroe lenta e perigosamente e atinge a toda sua população. A São Paulo da peça é alegre, é virtuosa, é atemporal e ilimitada, e junto a isso é inconsequente, é suja, é podre por debaixo, e isto a destroe, tal qual a droga que destroe boa parte de seus usuários. Usuários do crack, do Oxi, do Anhangabaú, do parque Trianon, da Usp.
Em São Paulo Surrealista não busque o espectador compreender completamente o texto e a eloquência sequencial da obra. Não é esse nitidamente o intuito da Companhia. A peça é visual, é sensorial, é sensitiva sem ser sensível demais. É um espetáculo de formas, corpos delirantes, efusivos, um carnaval animalesco por horas e extremamente cru e pungido em outras. É ver a São Paulo que amamos, mas que é underground, que tem o glamour das putas da Augusta, o mar de "junkies" do Anhangabaú, as madames dos Jardins com os cães de raça, a variedade do Leste a Oeste do Sul ao Norte, do centro, da periferia, tão bem marcado pelas falas proferidas por Sérgio Ricardo.
A peça tem aliás seu maior ganho quando trabalha com o coro, com o grupo. São as cenas mais envolventes, mais impactantes. O grupo, bem dirigido e vivo em cena, dança, canta, encara o espectador no olho, não tem pudor ou limitações para exprimir os pecados e as características do ser paulistano. É divertido, é chocante e interage muito bem com a proposta cênica. Nas cenas individuais ficamos mais afastados e mais espectadores do texto que por vezes não compreendemos, nos poucos diálogos e mais a frente com a parte de Artaud, onde conhecemos um pouco daquele artista que surge na última parte da encenação com suas neuras, seus questionamentos, suas crises e fecha o espetáculo com o clima da dor e da ira. Ainda assim, é quando o palco se preenche de gente, de vida, que somos tomados por uma energia, por uma vivacidade e uma estética arrebatadora e eficaz, que prende nossa atenção e nos satisfaz, mesmo que a maioria daquelas imagens não faça sentido da primeira vez e valha a pena ser vista uma segunda, terceira, ser apreciada. Mas aí está o grande barato da peça, é não ser clara e evidente, é nos permitir encarar as coisas que desfilam por nós como quem visita um Masp correndo e precisa olhar para os quadros sem muito tempo para apreciar, capta um detalhe aqui, outro ali, então nos vemos de repente mais aberto a ser impactados pelo todo do que buscando detalhes do mesmos. No meio da peça, somos presenteados pelo próprio poeta surrelaista Claudio Willer, lendo um de seus poemas, num ritual de aceitação aos incompreendidos, aos diferentes, aos judeus da nova sociedade, ao que é banalizado por não ser banal. Lindo de se ver, ouvir e sentir.
A sensação da peça em suma é que estamos presos dentro de um sonho de um paulista. Um paulista que, como Pagu conviveu nesse entremeio artístico, boêmio e corrido da cidade. Claro que todo esse festival recebe um auxílio visual e sonoro competentes, com uma iluminação e sonoplastia que casam com o que vemos e nos trás arrepios e focos interessantes, além da banda ao vivo que dá ritmo e dinamismo ao espetáculo. Algumas cenas ainda não me casam na mente e parecem-me feitas mais para os próprios atores do que para nós, mas num geral a peça envolve, diverte, choca, nada em proporções guturais ou mesmo incômodas, mas de uma maneira que consegue gritar, com educação.
São Paulo Surrealista fica em cartaz previamente até Maio, com possibidade de estender-se, mas recomendo que assista quando puder para que possa retornar. E retorne atento ao que não viu da primeira vez. Como um quebra-cabeça de informações visuais e falas aleatórias que aos poucos se condensam e vão sendo compreendidas quase que debilmente por nossa mente tão acostumada ao mastigado. Um belo trabalho de grupo, de corpo e voz, de sensações e arquétipos tão conhecidos. Um grito paulistano de dor, amor e cumplicidade ao nosso berço sujo, mas ainda de ouro.

P.S. - Se eu fosse você, pesquisavas estes nomes citados na crítica antes de assistir. Conhecer um pouco desses artistas ajuda a saborear a experiência além de ser bonito ver o respeito com o qual eles trataram esses grandes nomes.

MADAME - R. Conselheiro Ramalho, 873 - Bela Vista - São Paulo - SP
Tel: (11) 2592-4474 
Em cartaz sextas às 21:30 Sábados às 21:00 

Um comentário:

Danis Barros disse...

adorei o seu blog, e olhei o seu comentário a respeito do filme plano B em um blog aí, e gostei do sua opinião, dá uma olhada no meu blog também; Dani's_ informe São Bento.
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